O editor do Blog do
Maybuk – professor Sérgio Luiz Maybuk relata na publicação uma história com um
pedido de mãe para alegrar o coração de uma filha.
Em 23 de janeiro de
2026 recebi um áudio da querida amiga Luzia de Fátima Gonçalves que mora em
Curitiba. Ela é viúva de outro querido amigo João Lessa que foi embora antes do
combinado, como diria o saudoso Rolando Boldrin.
Ela disse - a minha filha
Ana Flávia tinha 3 anos quando o João faleceu e diz que não conhece a voz do
pai. E me pediu se eu sabia de alguma gravação do João da época da faculdade.
Comovido com o pedido
comecei uma investigação na Unespar, conversei com o professor José Antonio da
Rocha – decano do colegiado de geografia, curso do João e ele depois de alguns
dias disse que não encontrou nada. Depois lembrei que o João venceu algumas vezes
o Varal de Poesias da então Fecilcam e conversei por mensagem com a professora
Adriana Beloti (grande amiga) que é a atual coordenadora do Varal de Poesias.
Ela estava de férias e prometeu a partir dos anos que eu sugeri, procurar nos
arquivos alguma fita em VHS que talvez pudesse ter alguma imagem e voz do amigo.
Encontrou cinco fitas,
em quatro delas indicando de qual edição era, não foi encontrado nada e uma
delas não tinha indicação nenhuma. Mas algo estava incomodando e antes de ir
para Roncador-PR no final de semana (meu plantão com a mãe), fui até a Wa
Fotografias do proprietário Waldecir Augusto de Oliveira e solicitei a possibilidade dele
transformar a fita em digital até as 14 horas. Felizmente ele fez o trabalho
antes da saída do meu ônibus.
No dia 20 de março lá
pelas 23h comecei a assistir aquela fita de 1992, tinha quase uma hora de duração e de
repente a apresentadora do Varal de Poesias, a querida amiga já aposentada
Neusa Ciriaco Coppola com aquela voz marcante das incontáveis formaturas diz:
agora vamos apresentar a poesia Liberdade em Braços Negros e o intérprete é
João Lessa. Caramba, quase desmaiei de emoção. Assisti emocionado e filmei a
apresentação pela tela do computador e mandei a imagem e som para a amiga Luzia
que logo mandou para a filha que mora na França e dali em diante um turbilhão
de choros e minha missão cumprida. Em contato com a Ana Flávia sabendo que ela
é filha de dois poetas, pedi uma poesia e aqui está:
“Fenda
no Tempo”
Ontem chorei até minha cabeça palpitar.
Ontem chorei até a caixa de lenços se esvaziar.
Ontem chorei até minhas pálpebras dobrarem de
tamanho,
como se cada lágrima quisesse lavar todo o espaço do
meu corpo.
Entre as águas mais densas que meu corpo já verteu:
lágrimas de alegria,
de saudade,
de luto,
de tristeza,
lágrimas existenciais.
Transbordei de amor:
pelo ser humano,
pela educação,
pela poesia,
pela arte,
pela vida,
pela morte,
pelo renascimento.
Ontem presenciei uma fenda no tempo,
uma suspensão do ordinário,
a comprovação de que
artistas são mesmo imortais.
“Nenhuma ideia ou pergunta
que nasce do
nosso ser profundo
permanece
estéril.
Um dia se
realizará na história,
para o bem da
humanidade.”
— dizia meu
pai.
Vinte e cinco anos atrás ele partia.
Ah, se os registros fossem como hoje em dia…
A imaginação sempre minha fiel companheira,
desenha, aos poucos, o seu rosto em mim.
Admito: ele me ajudou.
deixou para trás um livro,
incontáveis poemas,
e diversas pessoas
onde um pouco de si pintou.
Ontem,
essa combinação ascendeu à luz:
Um baú de tesouros,
escondido entre fitas cassetes de 1992,
um rosto até então alheio,
Sérgio,
guiado por uma luz que precisava cantar,
desenterrou.
Sérgio,
num gesto sem fim
de generosidade e empatia,
sussurrou-me, em tempos obscuros,
que não há força mais pura
que o amor
encarnado nos pequenos atos
que tornam humano o ser humano.
Sérgio,
que percorreu inúmeras fitas antigas
em vigília silenciosa
até altas horas,
na esperança de que,
em algum instante,
escutasse a apresentadora
de um concurso de poesia
anunciar:
João Lessa.
Anunciou.
Pude saborear,
a doce e potente
voz do meu pai,
pela primeira vez,
em 25 anos.
Pude ver o lindo sorriso
do meu pai
brilhar ao se abrir,
acariciando memórias guardadas
em cantos silenciosos do meu peito.
Pude vê-lo,
hipnotizante,
incandescente,
dar vida às palavras
como se o mundo inteiro parasse para ouvir.
Pude vê-lo ganhar
não um,
não dois,
mas três prêmios,
sob uma chuva de aplausos.
Pude ver
minha mãe,
com a minha idade,
interpretar
um de seus poemas
e abraçá-lo,
naquela dobra do tempo.
Transbordei
transbordo,
e transbordarei de emoção,
cada uma das infinitas vezes
que ainda presenciarei essas lembranças respirarem,
sussurrando valiosos segredos antigos.
Cada vez que me lembrar
dessa semente de amor
que ficou aterrada por 34 anos,
e que, talvez por isso,
germinou e deu frutos
como nunca antes.
Resgatemos os tempos
em que se reunia
para ouvir poesia,
e em que atos de gentileza
se sobrepunham
à maldita apatia.
Viva o Sérgio.
Viva o João Lessa.
Viva a arte de poetizar.
Ana Flávia Gonçalves Lessa

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