terça-feira, 24 de março de 2026

FENDA NO TEMPO - ESCRITA PELA JOVEM POETA/POETISA ANA FLÁVIA GONÇALVES LESSA


 Bela foto em Annecy, no sudeste da França 

O editor do Blog do Maybuk – professor Sérgio Luiz Maybuk relata na publicação uma história com um pedido de mãe para alegrar o coração de uma filha.

Em 23 de janeiro de 2026 recebi um áudio da querida amiga Luzia de Fátima Gonçalves que mora em Curitiba. Ela é viúva de outro querido amigo João Lessa que foi embora antes do combinado, como diria o saudoso Rolando Boldrin.

Ela disse - a minha filha Ana Flávia tinha 3 anos quando o João faleceu e diz que não conhece a voz do pai. E me pediu se eu sabia de alguma gravação do João da época da faculdade.

Comovido com o pedido comecei uma investigação na Unespar, conversei com o professor José Antonio da Rocha – decano do colegiado de geografia, curso do João e ele depois de alguns dias disse que não encontrou nada. Depois lembrei que o João venceu algumas vezes o Varal de Poesias da então Fecilcam e conversei por mensagem com a professora Adriana Beloti (grande amiga) que é a atual coordenadora do Varal de Poesias. Ela estava de férias e prometeu a partir dos anos que eu sugeri, procurar nos arquivos alguma fita em VHS que talvez pudesse ter alguma imagem e voz do amigo.

Encontrou cinco fitas, em quatro delas indicando de qual edição era, não foi encontrado nada e uma delas não tinha indicação nenhuma. Mas algo estava incomodando e antes de ir para Roncador-PR no final de semana (meu plantão com a mãe), fui até a Wa Fotografias do proprietário Waldecir Augusto de Oliveira e solicitei a possibilidade dele transformar a fita em digital até as 14 horas. Felizmente ele fez o trabalho antes da saída do meu ônibus.

No dia 20 de março lá pelas 23h comecei a assistir aquela fita de 1992, tinha quase uma hora de duração e de repente a apresentadora do Varal de Poesias, a querida amiga já aposentada Neusa Ciriaco Coppola com aquela voz marcante das incontáveis formaturas diz: agora vamos apresentar a poesia Liberdade em Braços Negros e o intérprete é João Lessa. Caramba, quase desmaiei   de emoção. Assisti emocionado e filmei a apresentação pela tela do computador e mandei a imagem e som para a amiga Luzia que logo mandou para a filha que mora na França e dali em diante um turbilhão de choros e minha missão cumprida. Em contato com a Ana Flávia sabendo que ela é filha de dois poetas, pedi uma poesia e aqui está:               

 

“Fenda no Tempo”

Ontem chorei até minha cabeça palpitar.

Ontem chorei até a caixa de lenços se esvaziar.

Ontem chorei até minhas pálpebras dobrarem de tamanho,

como se cada lágrima quisesse lavar todo o espaço do meu corpo.

 

Entre as águas mais densas que meu corpo já verteu:

lágrimas de alegria,

de saudade,

de luto,

de tristeza,

lágrimas existenciais.

 

Transbordei de amor:

pelo ser humano,

pela educação,

pela poesia,

pela arte,

pela vida,

pela morte,

pelo renascimento.

 

Ontem presenciei uma fenda no tempo,

uma suspensão do ordinário,

a comprovação de que

artistas são mesmo imortais.

 

“Nenhuma ideia ou pergunta

 que nasce do nosso ser profundo

 permanece estéril.

 Um dia se realizará na história,

 para o bem da humanidade.”

 — dizia meu pai.

 

Vinte e cinco anos atrás ele partia.

Ah, se os registros fossem como hoje em dia…

A imaginação sempre minha fiel companheira,

desenha, aos poucos, o seu rosto em mim.

 

Admito: ele me ajudou.

deixou para trás um livro,

incontáveis poemas,

e diversas pessoas

onde um pouco de si pintou.

 

Ontem,

essa combinação ascendeu à luz:

 

Um baú de tesouros,

escondido entre fitas cassetes de 1992,

um rosto até então alheio,

Sérgio,

guiado por uma luz que precisava cantar,

desenterrou.

 

Sérgio,

num gesto sem fim

de generosidade e empatia,

sussurrou-me, em tempos obscuros,

que não há força mais pura

que o amor

encarnado nos pequenos atos

que tornam humano o ser humano.

 

Sérgio,

que percorreu inúmeras fitas antigas

em vigília silenciosa

até altas horas,

na esperança de que,

em algum instante,

escutasse a apresentadora

de um concurso de poesia

anunciar:

 

João Lessa.

 

Anunciou.

 

Pude saborear,

a doce e potente

voz do meu pai,

pela primeira vez,

em 25 anos.

 

Pude ver o lindo sorriso

do meu pai

brilhar ao se abrir,

acariciando memórias guardadas

em cantos silenciosos do meu peito.

 

Pude vê-lo,

hipnotizante,

incandescente,

dar vida às palavras

como se o mundo inteiro parasse para ouvir.

 

Pude vê-lo ganhar

não um,

não dois,

mas três prêmios,

sob uma chuva de aplausos.

 

Pude ver

minha mãe,

com a minha idade,

interpretar

um de seus poemas

e abraçá-lo,

naquela dobra do tempo.

 

Transbordei

transbordo,

e transbordarei de emoção,

cada uma das infinitas vezes

que ainda presenciarei essas lembranças respirarem,

sussurrando valiosos segredos antigos.

 

Cada vez que me lembrar

dessa semente de amor

que ficou aterrada por 34 anos,

e que, talvez por isso,

germinou e deu frutos

como nunca antes.

 

Resgatemos os tempos

em que se reunia

para ouvir poesia,

e em que atos de gentileza

se sobrepunham

à maldita apatia.

 

Viva o Sérgio.

Viva o João Lessa.

Viva a arte de poetizar.

 

Ana Flávia Gonçalves Lessa

 


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