quarta-feira, 3 de agosto de 2022

EXPOSIÇÃO ARTÍSTICA "SOMOS MUITAS" - MUSEU HISTÓRICO DE LONDRINA/PR


















O editor do Blog do Maybuk, professor Sérgio Luiz Maybuk, visitou a Exposição Coletiva SOMOS MUITAS, um evento muito interessante e de muita reflexão, no dia 30 de julho de 2022, no Museu Histórico de Londrina/PR que é mantido pela UEL – Universidade Estadual de Londrina.

Foram expostas obras das artistas Cris Suiter, Marianne Lépine e Zucapaula, tendo como Curadora Jô Vigoroto. Na abertura teve a presença da Diretora do Museu Edméia Aparecida Ribeiro e também da Reitora Marta Fávaro. Todas as citadas fizeram falas importantes.

A exposição contou o trabalho fundamental do expógrafo Amauri R. Silva Silva.

O motivo inicial da ida de Campo Mourão-PR até Londrina-PR, foi o convite feito pela professora aposentada da antiga Fecilcam e depois transferida para a UEL, Zueleide Casagrande de Paula que agora também é artista com o nome de Zucapaula. Na delegação de Campo Mourão-PR, também estavam as professoras Ana Paula Colavite, Aurea de Andrade Viana de Andrade, Dalva Helena Medeiros acompanhada de Gerson Colluci Junior. Esperava-se manter o contato e matar saudades da antiga amiga, a surpresa foi também conhecer as outras duas artistas e a Curadora, três mulheres extraordinárias e de luta do mesmo valor da querida Zueleide.

Com referência às obras das três artistas é muito difícil descrever o impacto que elas causam a quem tem o contato. Cada pessoa reage de uma forma, porém é inevitável que uma transformação aconteça no/a visitante.

A Cris apresenta uma obra de fortíssimo impacto tanto nas imagens reproduzidas quantos nas frases escritas ali que foram, são e infelizmente serão proferidas por muito tempo ainda e que cravam na alma das pessoas, especialmente das mulheres, na grande maioria das vezes por homens machistas.

A Marianne sacode a cabeça dos/as visitantes iniciando com uma Ala apresentando singelas mulheres, ou para ser mais preciso, pernas, sapatos, pés de mulheres e um grande mistério, como seriam seus rostos, o que estariam fazendo, conversando, tudo muito colorido e alegre. Depois na outra Ala, ao menos uma parte, de um cinzento triste dos trabalhos cotidianos domésticos, que fazem parte de uma jornada dupla ou tripla das mulheres que produzem para o sistema capitalista ou autônomas e empreendedoras. Para outras ainda, (aquelas que NÃO SÃO produtivas) para o sistema,  uma jornada única, infindável, quase uma prisão, sem reconhecimento e sem pagamento.

A  Zucapaula na sua sempre e profunda reflexão, de pesquisadora enveredou na arte com um emaranhado de artérias de toda forma possível e num colorido lindo que é ao mesmo tempo, lindo de se ver mas muito impactante pela reação que provoca. 

Na sequência serão apresentadas algumas considerações importantíssimas da Curadora e das próprias artistas.

Texto da historiadora e Curadora Jô Vigorito (@jovigorito) que está exposto no Museu e que foi gentilmente enviado ao Blog.

SOMOS MUITAS

Refletir sobre a importância da atuação da mulher como membro ativo na sociedade, com papel potente na construção da vida cidadã e na produção de conhecimento é o que move as artistas que fazem parte desta mostra. Elas não levantam bandeiras, apresentam a sensibilidade, a curiosidade e o senso de justiça de três artistas que enfrentam preconceitos e violências pelo simples fato de serem mulheres.

Nas artes visuais as mulheres estão cada vez mais determinadas e talentosas. Elas merecem lugar de destaque, pois fazem diferença e nos inspiram.

Na exposição “Somos muitas” Cris, Marianne e Zucapaula nos apresentam uma arte feminina, forte e consciente. Cientes que são do lugar importante que ocupam enquanto artistas que pensam e agem na sociedade, capazes de influenciar positivamente aqueles que se deixarem afetar por suas reflexões e produções artísticas.

Em suas obras Cris Suiter dá visibilidade a naturalização de certos tipos de preconceito que discriminam o corpo humano perante padrões socioculturais ultrapassados e excludentes, a despeito da igualdade dos direitos fundamentais quer regem a nossa sociedade.

Marianne Lépine foca na atuação feminina na vida doméstica. Reflete sobre qual o motivo da desvalorização do trabalho executado no lar? Uma gestão eficiente, capacidade de resolução de problemas, raciocínio rápido e criativo não é o que se exige dos profissionais de qualquer área?  Estas são as atividades que as mulheres ativas fazem em seus lares. Por qual motivo trabalhar no lar ainda é considerado um trabalho menor?

Zucapaula está sempre em busca de novas formas e materiais para expressar sua narrativa poética. Sua linha de raciocínio geralmente complexa encontra na arte um campo fecundo de possibilidades críticas-reflexivas. Assim como Cristiane e Marianne ela pensa as relações humanas, mas seu foco é o urbano. A cidade que abriga a complexa relação entre o individual e o coletivo na ocupação e construção dos espaços transformados pelo convívio em lugar afetivo, território cidadão.

As mulheres já conseguiram muitas conquistas no âmbito dos direitos, mas ainda há muito a ser feito e cada espaço de reflexão é um ganho nesse processo. A arte nos oportunizar de forma ímpar pensar criticamente e alterar o nosso entorno.

Texto transcrito do áudio de  Cris Suiter (@cris.sutier) gentilmente enviado ao Blog.

A série Invólucros foi desenvolvida a partir de uma pesquisa que mostrou o aumento da percepção do preconceito entre os brasileiros na última década, discriminação por causa da cor da pele, orientação sexual, etnia, idade, deficiência, religião, gênero entre outros, apesar da legislação brasileira considerar crime o ato discriminatório.

 O nome foi escolhido para simbolizar nosso corpo de uma maneira irônica mostrando que ele é visto apenas como invólucro pelo preconceituoso. Além da discriminação visível, que se caracteriza pelo ódio explícito, existe outra forma indireta que diz respeito a prática de atos aparentemente neutros caracterizado por expressões ambivalentes de maneira mais branda e as vezes imperceptível essa forma de preconceito tende a ser ainda mais perigosa por ser de difícil percepção, trata-se de um conjunto de hábitos, situações e falas embutido em nossos costumes e incorporados no nosso cotidiano que promove a segregação.

Através da arte podemos despertar no público a reflexão de que somos todos iguais independente do invólucro que carregamos.

Texto transcrito a partir de áudios de Marianne Lépine (@marianne.lepine) gentilmente enviados ao Blog.

Estou participando dessa exposição SOMOS MUITAS com duas séries. A primeira série chama-se MULHERES e outra série chama-se COTIDIANO.

Nessa primeira série a mulher é a protagonista, mas eu também uso como desculpa para pintar o fundo que usei bastante, eu coloco ela no centro para pintar o sofá, as cortinas, porque eu queria usar bastante estampas, que eu gosto de trabalhar com cores, então foi meio que uma intenção decorativa.

Ao mesmo tempo, as mulheres têm um mistério em torno delas porque muitas vezes eu não coloco rosto, porque eu acho que o rosto chama muito a atenção e desse jeito, fica um mistério, porque a gente fica imaginando como elas são, o que estão pensando, é como uma parte de uma cena que gente fica imaginando o resto da história. 

Dessa série tem o quadro Kilim (tapete turco), que tem quatro mulheres sentadas e um tapete bem colorido, com uma estampa bem particular, bem colorido bonito e tem só as das pernas das mulheres sentadas, como fosse um sofá e a gente fica imaginando o que tá acontecendo nessa cena, se elas estão reunidas na casa de alguém, se é uma festa, uma reunião, o que elas estão conversando e parece ser mulheres de uma época antiga também, é uma coisa meio misteriosa. 

Na série cotidiano, eu pintei coisas da minha vida doméstica, eu pinto de observação, observando os meus objetos, as minhas plantas, os meus vasos, e a partir daí, eu trouxe uma reflexão sobre as tarefas domésticas né, e aconteceu uma fase que começou em 2020 no começo da pandemia, que eu fiquei em casa isolada, com a minha filha, as escolas fecharam, então eu estava sobrecarregada, de tarefas domésticas e aí eu pintei esse quadro que se chama PIA.

Esse quadro, é uma pia, ele é todo de cores acizentadas e a única coisa mais colorida que tem, é uma buchinha dessas bem comuns de lavar a louça, que é verde e amarela e ele é muito diferente das coisas que eu costumo pintar, ele tem tons de cinza, enquanto eu costumo pintar coisas muito coloridas, então é assim mais triste e ele veio de um momento de exaustão mesmo. Com ele depois eu pintei mais um pouco dessa série assim de coisas bem do lar, da lavanderia, baldes e coisas assim e é para trazer uma reflexão sobre esse trabalho doméstico, porque não é visto nunca que a gente, todas as mulheres, quase todas as mulheres fazem esse trabalho principalmente as mães, mas não só as mães né, fazem um trabalho silencioso todos os dias, cuidando dos filhos, cuidando da casa, e que não é nem remunerado nem visto nem valorizado.

Texto da Zucapaula (@zucapaula_de) gentilmente enviado ao Blog.

A linha condutora de minha arte passa pelas imagens construídas a respeito da natureza e do urbano a partir de uma pesquisa realizada durante longo período de estudo, mas também considerando o que meus sentidos captaram e captam no processo de estudo sobre os muitos espaços estudados, desde as florestas, pequenos e grandes rios que considero como artérias da Terra aos espaços citadinos cuja configuração possui artérias em sua feitura seja planejada, seja espontânea.

 A ideia condutora, A poética envolve esses estudos e a minha sensibilidade acerca dos meus sentidos enquanto usuária dessa materialidade planetária. Considero que as artérias levam e trazem vida de um lugar a outro. Os rios, as ruas, as alamedas, as avenidas são artérias, pois levam vida de um lugar a outro. No caso das cidades os traçados planejados ou não, também se fazem a partir das relações humanas, geográficas, topográficas, de limites e perímetros que podem ser físicos, todos trazem vida pulsante.

Abordo o que meus olhos captam da natureza e desse urbano em suas profundezas e superfícies. Uso a intensidade da cor como um dos principais meios de materializar as muitas expressões na construção da materialidade em meu fazer artístico, sobretudo porque entendo que a constituição do humano brasileiro é muito colorida, está na natureza da nossa flora e fauna e o urbano a traz por inerência.   

Foi muito interessante ler as manifestações das artistas, o que sentiam no momento da criação das obras. Foi muito interessante também ler as considerações da Curadora JôVigorito com seu experiente olhar para obras artísticas.

O Editor do Blog apresentou seu olhar e com certeza todos e todas que já visitaram e visitarão a exposição têm e terão um olhar particular e com certeza serão transformados e impactados pela arte de primeira, ali apresentada. 

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