segunda-feira, 18 de agosto de 2008

FECILCAM PRESENTE NA 23ª ROMARIA DA TERRA DO PARANÁ

Por iniciativa da professora doutora Adélia Haracenko (departamento de geografia) da FECILCAM, com o objetivo de relacionar as teorias estudadas na disciplina de geografia agrária com a prática, organizou-se uma viagem técnica com destino a Querência do Norte para participação na 23ª Romaria da Terra do Paraná onde foram alunos do Curso de geografia e outros interessados sobre o tema. A professora inclusive é conhecedora academicamente falando, do tema, pois fez sua tese de doutorado discutindo a questão da posse da terra e dos movimentos sociais.

Eu fui um dos participantes da viagem e confesso que apesar de ter lido muito sobre o tema, fiquei impressionado com o que vi e com a organização do evento. Foi uma viagem muito cansativa, mas muito gratificante também. Saímos às 2 horas e trinta minutos de Campo Mourão no domingo e fomos amanhecer o dia no local do evento.

Na chegada, começamos a sentir de fato, como é a vida de um acampado. Nos serviram um gostoso pão caseiro com café e recebemos um livrinho de músicas para acompanhamento da programação. A cada ano a Romaria muda de cidade e tem um novo tema, este ano o tema foi: Rompendo as cercas da opressão, por justiça , terra e pão e já fomos convocados para participar da celebração que foi muito carregada de símbolos e mística, coisa impressionante.

Antes de entrar no assunto das apresentações quero fazer uma referência sobre a reação dos alunos ao terem que enfrentar os sanitários feitos de lona preta. Realmente alguns ficaram muito incomodados com a situação, mas é bom lembrar que a maioria dos integrantes desses movimentos de ocupação de terra, as vezes passam anos seguidos nestas condições, sem contar a roupa cheirando a fumaça dentro dos barracos, chuva, frio e barro em que são expostos.

A cerimônia mística teve um grande círculo cercado de arame farpado, em que havia um monte de terras e na seqüência começaram as apresentações e todos que estavam assistindo compuseram um círculo também. Vou retratar os pontos que mais me chamaram a atenção, pois é impossível descrever tudo. Primeiro uma mulher vestida com uma roupa marrom da cor da terra fez uma encenação muito bonita e falava como se ela própria fosse a terra e foi descrevendo toda a trajetória do uso desta, ao longo da história aqui no Brasil, desde quando apenas os indígenas aqui habitavam, passando por todo o tipo de exploração aos camponeses até chegar na monocultura cheia de agrotóxico voltada para exportação. Depois trouxeram uma cruz feita de um grande tronco de árvore e na horizontal uma trave de ferro com dois discos de arado como se fossem os dois pratos da justiça. E na seqüência aparecem algumas mulheres vestidas de preto, inclusive com véus da mesma cor e foram arrancando daquele monte de terras, camisetas manchadas de vermelho e com os nomes de várias pessoas que morreram nos confrontos com pistoleiros e a polícia. E foram pendurando na cerca de arame farpado, enquanto o locutor dizia que segundo a Pastoral da Terra no Brasil já foram assassinados mais de 1.500 trabalhadores e só no Paraná mais de 50.

Passando a parte mais triste, cortaram os arames e dentre outras coisas, várias pessoas entraram naquele espaço, portando de grandes fotografias daquelas pessoas que estavam nas camisetas e embaixo dizendo que eles ainda viviam, no sentido de que foram mártires e suas mortes não foram em vão, inclusive uma das pessoas carregando as fotos foi o companheiro Mário de Lima de Campo Mourão. Com relação aos depoimentos, vou destacar três que me pareceram mais importantes, ou seja, houve um bonito discurso de um pastor luterano representando todos os pastores que trabalham com a questão da terra, depois o Bispo de Paranavaí Dom Sérgio Aparecido Colombo fez um discurso muito firme defendendo os trabalhadores sem terra e condenando o neoliberalismo, os transgênicos e a destruição da natureza e por último e mais importante um representante do movimento sem terras de Querência do Norte, relatou toda a história das opressões, enfrentamentos e torturas que seus companheiros sofreram e usou uma frase que eu achei o máximo: Eles não vão nos intimidar, pois somos como a clara de ovo, quanto mais se bate mais ela cresce.

Havia um número muito grande de caravanas, a maioria de igrejas de todo o Paraná e também muitos estudantes. Tínhamos que ficar em grupo para não nos dispersamos. Debaixo de um sol escaldante ficamos Eu e um grupo dos nossos, o Mário, o Anderson, a Valdinez e até a companheirinha Andriele de apenas 10 anos. Acredito que pagamos vários pecados veniais nesse dia, tamanho o calor que estava. E acompanhamos toda a apresentação, sob o comando de um grupo de cantores maravilhosos e tinha um deles que comandava todo o grupo e me chamou atenção duas partes interessantes, uma delas ele fez todos levantarem os braços em direção ao sol, para contemplá-lo isso no início da manhã e por várias vezes pediu que todos se abaixassem e pegassem na terra em respeito a ela. Muito lindo, estas duas partes.

Depois da Romaria feita a pé por uma meia hora, almoçamos, e houve uma benção final feita pelo Bispo nos vários alimentos que ali estavam e que foram posteriormente divididos com que quisesse e todos receberam uma lembrancinha com uma fita vermelha e um pedaço do arame farpado, tirado daquele local da manhã. O ambiente da parte da tarde foi num centro de pesquisas do MST, coisa muito linda que todos precisavam conhecer e na entrada uma imagem muito interessante, quatro bandeiras, a do Brasil, do Paraná, do MST e do Ernesto Che Guevara em que foi batizado o Centro.

Para encerrar quero dar meus parabéns a atitude da professora Adélia e dizer que seria interessante outros professores e alunos e sociedade em geral participarem de um evento destes, pois muitas vezes se critica aquilo que se não conhece.

2 comentários:

  1. Anderson Marcondes18 de agosto de 2008 18:41

    A Romaria da Terra é um momento onde saciamos a nossa sede por justiça, terra e pão. Justiça para aqueles e aquelas excluídos da convivência do meio social; Terra para aqueles e aquelas que querem dela extrair o alimento para si e seus semelhantes; e Pão, para alimentar nosso corpo, para alimentar a nossa esperança de uma sociedade onde caibam todos os homens e todas as mulheres. A Romaria da Terra é assim: um momento de reflexão acerca de nossas atitudes em vista as opressões que uma minoria impõe sobre a maioria. Não queremos aqui acabar com a propriedade privada, mas não podemos, enquanto cidadãos e cidadãs, permitir que uma pessoa detenha 15 mil alqueires de terras sem ao menos nela pisar em detrimento de famílias que querem apenas produzir alimentos para sua subsistência e comercialização de excedentes. A Terra deve acima de tudo respeitar a sua função social e ambiental, sem, contudo, desprezar o agronegócio. Parabéns a professora Adélia pela iniciativa e a você professor Maybuk pela participação e divulgação no seu blog. E um parabéns especial para todos e todas que participaram da 23ª Romaria da Terra. A minha esperança é de que ainda edificaremos uma sociedade moldada em princípios de justiça e fraternidade, sem os quais não serão possíveis sem a eliminação das desigualdades sociais.

    Em Tempo: Maybuk, comecei a consultar diariamente o site do Vaticano para verificar como estão os processos de canonização. hehehe...
    Abraços amigo...

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  2. Primeiramente, gostaria de agradecer ao professor Maybuk pela participação, junto ao trabalho de campo da disciplina de Geografia Agrária, que neste ano participou da 23ª Romaria da Terra do Paraná, e posteriormente, por fazer uma matéria importante sobre o que presenciou neste evento. Trabalhamos sempre, na perspectiva da resistência e recriação do campesinato brasileiro,palavras estas, que estão imbricadas na essência campesina, que mesmo diante de um desenvolvimento desigual e contraditório do modo capitalista de produção, conseguem manter-se sob severas pressões de um poder hegemônico, e mesmo assim, produzir o alimento, que vai, desde os tempos imemoriais para a mesa dos príncipes e dos tecelões, como bem já salientou Margaria Maria Moura, e que na atualidade, chega até as nossas mesas. É baseada nessa concepção teórica, evidentemente, respeitando e estudando as outras linhas de pensamento que permeiam a Geografia, até para que nossos alunos, consiguam discerní-las, que levamos nossos alunos à prática, para que vejam como é uma organização de um evento camponês, em que o respeito à terra e aos alimentos que dela provém são elementos vitais para vida na sociedade atual, tão envolvida com o consumo, e para reafirmar que o camponês é um sujeito que tem na resistência, sua essência. É nesse tipo de evento, que envolvem os camponeses, estejam eles, inseridos ou não, nos movimentos sociais, que nossos alunos da disciplina de Geografia Agrária conseguem perceber e vivenciar, e dar maior valor a questão agrária, haja vista que muitos deles provém de pequenas unidades produtivas camponesas, em outras palavras "são da roça", e ao invés de sentirem-se constrangidos, passam a ter orgulho de saber que em seu curso de graduação há uma discussão interessante que trata e valoriza o trabalhador rural.É por isso Professor Maybuk, que eu e meus alunos do 2º ano agradecemos sua participação e a divulgação do nosso trabalho de campo. Obrigada.
    Adélia Haracenko

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